terça-feira, 10 de maio de 2016

Treinamento Conjunto de Operações Especiais: 2º dia (10/05)


Fotografia 1: Oficina de tiro individual/progressão em dupla. (Foto: Seção de Comunicação Social do COpEsp).

Oficialmente denominada como “Exercício Conjunto Interagências de Enfrentamento ao Terrorismo”, a bateria de exercícios que congrega 28 equipes táticas das Forças Armadas e dos órgãos de segurança que atuarão nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, reuniu, nesta terça-feira (10/05), 22 adidos militares (representante das embaixadas para assuntos militares), além de autoridades do MD (Ministério da Defesa) e da PF (Polícia Federal). O segundo dia de atividades realizadas no COpEsp também abriu espaço para que diferentes órgão de imprensa pudessem coletar imagens e depoimentos relacionados ao treinamento.
Abrindo os trabalhos desta terça-feira, dois briefings foram ministrados no período da manhã, um conduzido pelo Gen Bda Mauro Sinott Lopes (Comandante do CopEsp e do CCPCT) para os adidos militares e autoridades, e outro conduzido por oficiais do COpEsp para os órgão de imprensa. Ambos briefings trataram de apresentar aos espectadores informações relacionadas às atividades interagências, às oficinas táticas, bem como à estrutura de enfrentamento ao terrorismo.
Em seguida ocorreu uma mostra de materiais empregados (armas e equipamentos), além de um circuito de visitas às oficinas de tiro individual/progressão em dupla, clicagem de armamentos, e DSET. Especificamente no que se refere à essas duas últimas oficinas cabe um esclarecimento. O procedimento de “clicagem” corresponde ao acerto do sistema de pontaria (aberta ou optrônica) em relação ao cano da arma, visando alinhá-los ao alvo tornando-os colimados. Por sua vez, DSET (Dispositivo de Simulação de Engajamento Tático) constitui um aparelho (acoplado à extremidade do fuzil) que dispara um feixe laser que é captado por sensores localizados em uma roupa especial utilizada por indivíduos que fazem figuração como inimigos. Os dados ficam arquivados em um computador, permitindo identificar o autor do disparo e o local do corpo onde ocorreu o “impacto” do feixe.

Fotografia 2: Oficina de "clicagem" de armamentos. (Foto: Seção de Comunicação Social do COpEsp). 

Terminado o circuito de visitas às oficinas, os órgão de imprensa passaram a entrevistar o Gen. Sinott e alguns adidos militares, entre os quais, destacamos o adido do Reino Unido, cuja capital (Londres) foi sede dos últimos jogos realizados em 2012.
No decorrer da entrevista o Gen. Sinott declarou:


Os adidos puderam perceber nitidamente que o nosso planejamento, a nossa arquitetura montada para fazer frente à possíveis ameaças é perfeitamente factível em termos militares [...]Nessa atividade, conseguimos traduzir para eles, em termos práticos, como vamos desenvolver de forma integrada a atividade contraterror. E pudemos mostrar que a agenda da segurança é uma atividade de Estado que está em plenas condições de proporcionar a segurança adequada, não só para a nossa população, mas para todas as delegações que aqui estiverem.


As atividades da manhã foram finalizadas com um almoço de confraternização para as autoridades e representantes da Alemanha, Argentina, Chile, EUA, Indonésia, Japão, México, Polônia, Reino Unido, Rússia, entre outros.
No período da tarde, já sem a presença dos convidados, as equipes reproduziram as oficinas realizadas durante o período da manhã.




segunda-feira, 9 de maio de 2016

Treinamento Conjunto de Operações Especiais: 1º dia (09/05)



Antecedendo as informações atinentes ao primeiro dia do Treinamento Conjunto de Operações Especiais, realizado na sede do COpEsp em Goiânia-GO, acreditamos ser fundamentalmente importante esclarecer alguns aspectos inerentes a esse evento para que nossos leitores possam compreender sua abrangência e relevância.
Instituído pelo MD (Ministério da Defesa) por ocasião do Planejamento de Segurança desenvolvido por ocasião dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, o CCPCT (Comando Conjunto de Prevenção e Combate ao Terrorismo) é uma estrutura temporária, comandada pelo Gen Bda Mauro Sinott Lopes (que também é comandante do COpEsp [Comando de Operações Especiais]), responsável pelo enfrentamento da ameaça terrorista enquanto durarem os jogos. Para fins de emprego, o CCPCT coordena os times táticos das Forças Armadas e promove a integração junto as equipes dos diferentes órgão de segurança pública.
Por promover uma experimentação coletiva, gerando conhecimento mútuo entre os ElmOpEsp, o MD e o CCPCT consideram indispensável a oportunidade de reunir os diferentes times táticos que atuarão no combate ao terrorismo em um treinamento conjunto, uma vez que a convivência fortalece a integração, estreita laços, amplia a confiança, e evita a duplicação de meios.

Fotografia 1: Gen Bda Mauro Sinott Lopes, comandante do COpEsp e do CCPCT. (Fonte: disponível em: http://g1.globo.com/goias/noticia/2016/02/exercito-e-prf-reforcam-o-combate-ao-aedes-aegypti-em-cidades-de-go.html Acesso em: 9 mai. 2016). 

Particularmente em relação aos eventos desta segunda-feira (09/05), salientamos que, assim como ocorreu durante todo o domingo (08/05), o período da manhã foi reservado para a recepção das equipes táticas que se deslocaram até Goiânia oriundas de suas respectivas sedes. Posteriormente, para balizar o início do treinamento conjunto, foi realizada uma cerimônia de abertura contando com a participação do comandante do CCPCT/COpEsp, bem como dos elementos mais antigos de cada instituição ali representada. Terminada a cerimônia de abertura, deu-se início uma bateria de briefings (informações resumidas para fins de coordenação), conduzidos coletivamente pelo COpEsp e individualmente por cada um dos 28 times táticos, considerando as respectivas oficinas táticas que serão realizadas a partir desta terça-feira (10/05).




sábado, 7 de maio de 2016

Informativo FOpEsp, nº 2

Treinamento Conjunto de Operações Especiais


Sede do COpEsp em Goiânia (Foto: Rodney Lisboa).

Informamos que no decorrer da próxima semana, entre os dias nove e treze, ocorrerá, no âmbito do Ministério da Defesa, um treinamento conjunto de Operações Especiais reunindo 28 times táticos das três Forças Singulares (Exército, Marinha e Força Aérea) e das Forças Auxiliares (Polícia Federal, Força Nacional de Segurança, Polícias Militar e Civil) na sede do COpEsp (Comando de Operações Especiais) do Exército Brasileiro em Goiânia-GO. Organizado com o objetivo de reunir as diversas agências que atuarão na segurança dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, o evento congregará diferentes oficinas montadas para o treinamento de táticas de enfrentamento distintas.
Ciente da importância desta iniciativa, o blog FOpEsp, escolhido como um dos canais para divulgação oficial do referido evento, estará acompanhando e informando seus leitores diariamente acerca da sequência de atividades desenvolvidas por ocasião deste Treinamento Conjunto Interagências.


sexta-feira, 6 de maio de 2016

Emprego de Atiradores de Precisão em Apoio às Operações Especiais

Texto elaborado por Rodney Alfredo Pinto Lisboa com colaboração do Capitão FE Frederico Chaves Salóes do Amor, coordenador do estágio de Caçador de Operações Especiais do CIOPESP (Centro de Instrução de Operações Especiais) do Exército Brasileiro. 

A figura do atirador de precisão, internacionalmente conhecido pelo termo “sniper”, geralmente é associada ao estereotipo estabelecido pelos filmes de Holywood, representado nas telas de cinema por um andarilho solitário, aparamentado com uma vestimenta peculiar (traje ghillie), espreitando à procura de seus alvos. Com frequência os atiradores de precisão, denominados no Brasil pela expressão “caçadores” (empregada, sobretudo, pelo Exército), são relacionados à quantidade de mortes que lhes são creditadas. Entretanto, o ofício desses profissionais está mais relacionado às vidas que salva no campo de batalha do que àquelas que elimina.
O atirador de precisão é um militar especializado em executar disparos seletivos de longa distância com a exatidão necessária para eliminar alvos escolhidos pela importância de suas funções e/ou pela dificuldade de serem engajados por outros meios. Especialistas na condução de procedimentos de infiltração/exfiltração, valendo-se da furtividade (dissimulação) para alcançar seus objetivos, cabe aos caçadores a tarefa de minar a disposição de lutar do inimigo mediante eliminação de alvos específicos ou alvos de oportunidade que tenham relevância nos quadros operacionais da força oponente. Embora alvos humanos sejam mais corriqueiros, não é incomum que os atiradores de precisão recebam ordens para disparar contra alvos materiais com o objetivo de destruí-los ou inutilizá-los.  

Fotografia 1: A imagem icônica do atirador de precisão. (Fonte: Disponível em: http://www.brasil.gov.br/defesa-e-seguranca/2014/05/conheca-as-armas-e-equipamentos-a-disposicao-do-exercito-brasileiro/militar-cacador-sniper-do-exercito-brasileiro/@@images/85293d88-283e-49c9-9b05-7e3e307d8fed.jpeg Acesso em: 6 mai. 2016).

Além da função que o caracteriza (eliminação de alvos), os caçadores também podem ser empregados em funções de apoio, executando ação de bloqueio ou operando como observador. Nas ações de bloqueio os atiradores se posicionam em um local privilegiado para auxiliar a manter um determinado espaço que é controlado por forças aliadas. Atuando na condição de observador, o caçador estabelece um posto de observação que lhe dá ampla visão do campo de batalha para prover apoio ao avanço da tropa pelo terreno.
Em virtude de sua capacidade ímpar de realizar disparos de precisão valendo-se de um pequeno número de elementos para causar grandes danos a um contingente muito maior sem confrontá-lo diretamente, uma equipe de caçadores (atirador e spotter [observador]) constitui um eminente “multiplicador de força”
Para que obtenha êxito na consecução de suas tarefas, os atiradores de precisão devem dispor de acurada capacidade de raciocínio, uma vez que a performance do disparo depende de inúmeras variáveis relacionadas às condições do clima, do terreno, bem como da composição de movimentos inerentes à ciência balística.
O que diferencia o atirador de precisão de qualquer outro militar refere-se à capacidade mental de acompanhar a rotina de um alvo em seus afazeres diários, para eliminá-lo um ou dois dias depois.
Particularmente no que se refere ao apoio às OpEsp, cabe aos caçadores ultrapassar os limites do conhecimentos técnicos e táticos da atividade do tiro de precisão. Especificamente em relação às Ações Diretas, é fundamental que ele domine as TTP (Táticas, Técnicas e Procedimentos) relacionadas às entradas táticas, uma vez que seu emprego, geralmente, é conjugado com esse tipo de ação.  Compreender como o destacamento de assalto conduz uma entrada em um cômodo ou como o inimigo pode reagir em resposta à iniciativa do destacamento de assalto, são premissas essenciais para que a atuação do caçador (provendo informação ou realizando tiro seletivo) possa influenciar no resultado da missão.

Fotografia 2: Equipe de atiradores de precisão do EAS da FAB participam de treinamento realizado em Santa Catarina. (Fonte: Disponível em: http://www.defesanet.com.br/fronteiras/noticia/8166/Agata-6---Tropa-de-elite-da-FAB-esta-pronta-para-Operacoes-Especiais/ Acesso em: 6 mai. 2016).

Caçadores de Operações Especiais atuam em equipes para melhorar sua eficácia e proporcionar segurança mútua, de moto a manter o apoio constante para os dois integrantes da equipe. Operando coletivamente, os atiradores de precisão podem atingir alvos mais rapidamente, podendo também ficar em campo durante períodos de tempo mais longos quando comparados a um único atirador. Experiências adquiridas em situações passadas mostram que quando o caçador e o spotter operam juntos, ocorre um aumento significativo na taxa de sucesso das missões. A redução na eficácia de caçadores que operam isoladamente se deve ao fato de que o militar sente-se sobrecarregado ao preocupar-se com sua segurança e com as tarefas a serem realizadas por ele. Além disso, alvos de alta prioridade podem, eventualmente, necessitar do engajamento dos dois membros da equipe (o spotter também possui qualificação como caçador) para neutralizar a(s) ameaça(s) ao mesmo tempo, no caso de um engajamento simultâneo de alvos diferentes. Outra vantagem consiste na possibilidade de haver uma segunda opção caso haja alguma pane na execução do primeiro tiro.
O emprego de atiradores de precisão fornece um alto grau de flexibilidade em relação ao desdobramento no terreno. Esta flexibilidade ocorre em virtude da organização (distribuição) dos caçadores em áreas ou locais onde eles terão maior influência sobre o inimigo alcançando maior efeito potencial, além da possibilidade de fornecer o máximo apoio às forças amigas.


quarta-feira, 4 de maio de 2016

Operações Especiais no Combate ao Estado Islâmico

Adaptação do texto escrito originalmente por Linda Robinson, assessora adjunta para a Segurança Nacional e Política Externa do Conselho de Relações Exteriores dos EUA. (Disponível em: https://www.foreignaffairs.com/articles/syria/2015-12-07/isis-vs-special-ops  Acesso em: 2 mai. 2016).

Em dezembro de 2015, Ashton Carter, Secretário de Defesa norte-americano, anunciou que os EUA intensificaria o envio de tropas especiais ao Iraque, instaurando uma nova fase no esforço da OTAN para derrotar a mobilização fundamentalista do Estado Islâmico, também conhecido pela sigla ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria). Os ElmOpEsp foram autorizados a realizar incursões tanto no Iraque quanto na Síria, visando remediar lacunas criadas na campanha para obtenção de dados de inteligência. As ações levadas à efeito pelos operadores norte-americanos têm por objetivo levantar informações relevantes mediante captura de pessoal e materiais (aparelhos celulares; computadores; entre outros) ligados ao Estado Islâmico. Operações dessa ordem, denominadas "Sensitive Site Exploitation", envolvem o rápido processamento e análise de dados coletados pelas FOpEsp. O conhecimento obtido devido à ação das unidades de elite ampliará significativamente a pressão imposta tanto à organização jihadista quanto à seus colaboradores/fornecedores. 
Entretanto, a iniciativa de empregar FOpEsp conduzindo Ações Diretas contra o Estado Islâmico representa apenas uma parcela do ajuste militar necessário para reprimir o ímpeto do grupo terrorista insurgente. Complementando o engajamento inicial das tropas especiais da OTAN, é fundamentalmente importante desenvolver métodos de Ação Indireta para constituir tropas nativas capazes de prover a segurança do território da Síria e do Iraque. A OTAN apoia diversos grupos locais que se opõem ao ISIS, embora não se mobilize para unificá-los em um esforço conjunto para esse fim.


Fotografia 1: ElmOpEsp norte-americanos e jordanianos participam de uma demonsntração conjunta com tropas iraquianas. (Fonte: Disponível em: http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2016/01/13/Special-U-S-targeting-force-now-in-place-in-Iraq.html Acesso em: 2 de mai. 2016).

Os esforços militares da OTAN, sobretudo dos EUA, para combater o Estado Islâmico no Oriente Médio tem como pano de fundo o interesse político-estratégico norte-americano na região. Fornecendo suporte mais consistente para o governo de Haider al-Abadi, primeiro-ministro do Iraque, os EUA poderiam ampliar seu nivel de influência em Bagdá. Por sua vez, incrementar o apoio norte-americano para erradicar o ISIS na Síria pesaria favoravelmente para os opositores do presidente Bashar al-Assad quando forem definidos o destino do atual regime, bem como a erradicação da organização fundamentalista no país. Para tanto, é imprescindível que seja estipulado um calendário visando uma eventual transição de governo. A instauração de prazos poderia incentivar a Rússia e o Irã, aliados do regime totalitário de al-Assad, a procurar por caminhos alternativos para garantir seus interesses, abandonando definitivamente a iniciativa de apoiar um governo fragilizado.
Embora a Rússia também tenha se mobilizado para derrotar o Estado Islâmico efetuando "bombardeios estratégicos" sobre as terras ocupadas pelos jihadistas, a falta de precisão dos artefatos russos tem ocasionado mais problemas que soluções à medida que causam um excessivo número de baixas civis. 
Diferente da metodologia adotada pelos russos, a OTAN optou pela estratégia de enviar suas FOpEsp para assessorar as tropas iraquianas e sírias na tentativa de derrotar o Estado Islâmico. Apesar de Washington ter se comprometido a intensificar a campanha para erradicar o ISIS, os esforços têm grande probabilidade de falhar caso os recursos reservados para as Ações Indiretas conduzidas pelos ElmOpEsp não tenham esse destino.   


Fotografia 2: Operador Especial  de 1ª Classe Charles Keating IV, morto no Iraque em 03/05/2016 em confronto com militantes do Estado Islâmico. (Fonte: Disponível em: http://www.nbcnews.com/storyline/isis-terror/charlie-keating-iv-grandson-notorious-banker-identified-navy-seal-killed-n567361 Acesso em: 5 mai. 2016).

Empenhados em derrotar a ameaça representada pelo Estado Islâmico, as forças de coalizão lideradas pelos EUA sofreram mais uma baixa nesta terça-feira, dia três de maio de 2016. Envolvido em um intenso combate contra militantes do ISIS, Charles Keating IV, um operador SEAL da Marinha norte-americana, foi vitimado por um disparo de arma de fogo nas proximidades da cidade iraquiana de Erbil. Com 31 anos de idade Keating atuava como assessor incorporado às forças curdas peshmerga, e foi morto após integrantes do ISIS terem penetrado a linha de frente das tropas as quais assessorava. 


domingo, 1 de maio de 2016

Capacidades Físicas e Psicológicas no Desempenho de Técnicas CQB (Parte Final)

Adaptação de artigo publicado por Rodney Alfredo Pinto Lisboa na Revista Marítima Brasileira, v. 134, n. 10/12, p. 77-90, 2014.

Produzidas sob a condição de "luta e fuga", a grande quantidade de adrenalina e noradrenalina na corrente sanguínea aumenta o estado de ativação do indivíduo, contribuindo significativamente para a performance da atividade realizada. Contudo, quando o volume hormonal é produzido em estado extremo de estresse, a grande concentração de hormônio pode comprometer a performance, uma vez que altera a percepção da realidade e pode prejudicar o resultado da tarefa física. Para ilustrar esse fato, a psicologia da atividade física apresenta-nos a teoria do “U-invertido” para explicar a relação entre os estados de ativação e performance. Segundo essa hipótese, enquanto o indivíduo permanece em estado de baixa ativação seus níveis de desempenho permanecem abaixo do padrão desejado de performance. Entretanto, seu desempenho tende a aumentar exponencialmente por ocasião do aumento da ativação. Por outro lado, aumentos adicionais na ativação fazem sua performance declinar, pois o corpo não é capaz de suportar grandes alterações hormonais por períodos prolongados.
Considerando que as técnicas CQB envolvem a manipulação e o disparo de armas de fogo, a eficiência no emprego do armamento depende fundamentalmente da condição humana, uma vez que a arma é empunhada e disparada por um indivíduo em condições psicologicamente comprometedoras que interferem diretamente nas respostas emitidas pelo corpo. Operações de confronto armado aproximado exigem dos operadores elevados níveis de coordenação motora e estabilidade emocional, sendo, portanto, necessário que cada um dos membros do destacamento de assalto controle seus níveis de ativação para não comprometer seu desempenho e o desfecho da missão por consequência.


Fotografia 8: Membros do Comando de Operações Especiais jordaniano realizam adestramento MOUT empregando técnicas CQB no KATSOC (Centro de Treinamento de Operações Especiais Rei Abdullah II) em Amã, Jordânia. (Fonte: Disponível em: http://foxtrotalpha.jalopnik.com/this-crazy-complex-in-jordan-is-like-disneyland-for-eli-1680695046 Acesso em: 30 abr. 2016).

Os penosos requisitos físicos e psicológicos envolvidos em uma situação de confronto armado, permeado por uma atmosfera de incerteza e letalidade, podem ocasionar um fenômeno denominado “estresse de combate”. Apesar das sensações variarem de indivíduo para indivíduo, os sintomas desse fenômeno tendem a apresentar certa padronização, manifestando-se por meio de agressividade, ansiedade, apatia, catatonia, depressão, e lapsos de memória. Com o intuito de minimizar os efeitos psicológicos causados pelo confronto armado, o autocontrole adquirido mediante o treinamento sistemático surge como fator determinante quando da necessidade de raciocinar criticamente diante de uma situação hostil.
Um sentimento comum manifestado em militares que participam de confronto armado é a auto depreciação por atirar em outra pessoa. Em virtude dos rigorosos requisitos exigidos nos processos de seleção e treinamento das FOpEsp, esse sentimento parece ser menos comum entre seus integrantes, uma vez que a rotina de treinamento os prepara para suportar os elevados níveis de estresse encontrados em situações reais de combate.  Assim, enquanto os efetivos das tropas especiais são treinados para processar as informações em um ambiente altamente estressante, agindo racionalmente de modo a empregar o grau de violência requerido em cada missão, elevando-o ou abaixando-o como o dimmer (dispositivo utilizado para variar a potência de uma corrente elétrica), os militares das tropas regulares, por não encontrarem-se devidamente preparados para as inúmeras provações do combate real, têm a percepção global do ambiente prejudicada em consequência da sobrecarga sensorial da porção simpática do SNA. Incapazes de se adaptar com a velocidade necessária frente à situação de imprevisibilidade, uma vez que o treinamento não os preparou para tanto, o soldado convencional, independente da condição mutável da batalha, foca toda sua atenção nas ações a que foi condicionado a realizar por ocasião do adestramento, tornando-o incapaz de captar e reconhecer qualquer estímulo (visual ou auditivo) adicional.


Fotografia 9: Policiais do BOPE treinam técnicas de incursão na comunidade Tavares Bastos, Rio de Janeiro. (Fonte: Disponível em: http://fotos.noticias.bol.uol.com.br/imagensdodia/2013/01/19/osso-duro-de-roer-veja-imagens-dos-35-anos-do-bope-a-elite-da-pm-do-rio.htm?abrefoto=5#fotoNav=14  Acesso em: 30 abr. 2016).

Um fato que não deve ser ignorado considera que os sintomas do estresse de combate podem manifestar-se mesmo nos militares mais bem preparados, quando eles encontram-se expostos por muito tempo às situações que envolvam o confronto armado. A solução adotada para esse problema é limitar o tempo de serviço dos ElmOpEsp (em geral de três a quatro anos) que encontram-se direta e constantemente envolvidos em ações que envolvem o confronto armado aproximado.
A experiência acumulada em diferentes situações de enfrentamento revelam que os efeitos cumulativos do despreparo levam ao debilitamento e a acentuada deterioração do desempenho. Portanto, levando-se em conta que as técnicas CQB são executadas mediante responsabilidade compartilhada entre os integrantes do destacamento de assalto, a deficiência individual não se limita apenas à performance de um único militar, podendo se estender para toda formação ao ponto de acarretar falência operacional. 


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Capacidades Físicas e Psicológicas no Desempenho de Técnicas CQB (Parte 3)

Adaptação de artigo publicado por Rodney Alfredo Pinto Lisboa na Revista Marítima Brasileira, v. 134, n. 10/12, p. 77-90, 2014.

É essencial compreender que o condicionamento físico constitui elemento fundamental para a obtenção de um resultado satisfatório em relação à performance de execução das técnicas CQB, mas ele não deve ser o único componente da tarefa biopsicológica a ser levado em consideração.
Situações de confronto armado aproximado são consideradas ocorrências de alto risco, pois a organização estrutural das instalações (cômodos, corredores, escadas, entre outros) apresenta áreas internas com espaço físico restrito e vias de circulação estreitas, que além de dificultar o deslocamento do destacamento de assalto, limitam a visão e reduzem a área de enfrentamento, expondo os operadores de modo a coloca-los na linha de fogo inimiga. Para os ElmOpEsp, a presença de possíveis reféns nas áreas de confronto é outro complicador, uma vez que seu autocontrole e capacidade de decisão (definindo o momento de executar o[s] disparo[s]) são testados sob risco de comprometer seu raciocínio crítico levando-o a cometer equívocos que podem ser fatais.
Em operações que requeiram o emprego de técnicas CQB, o desempenho da tarefa física é diretamente influenciado pela condição psicológica à medida que o SNC (Sistema Nervoso Central) faz com que o indivíduo sinta-se vulnerável e fora de controle, principalmente pelas sensações de ativação, ansiedade e estresse. O conceito de ativação é apresentado como uma combinação de atividades fisiológicas e psicológicas relacionadas à motivação em um determinado momento, podendo variar da letargia (baixa ativação) à excitação (alta ativação). Associada à ativação, a ansiedade constitui um estado emocional que pode ser cognitivo (grau de ativação cognitiva) ou somático (grau de ativação física), gerado por diversas situações que podem ou não depender do indivíduo. Por sua vez, o estresse é definido como um desequilíbrio substancial entre a demanda (física e/ou psicológica) e a capacidade de resposta, gerada a partir da falha em satisfazer adequadamente as exigências da tarefa que está sendo solicitada. Outro fator que pode interferir na performance de execução das técnicas CQB é o medo, contextualizado como um estado emocional desencadeado em situação de perigo iminente que potencializa os níveis de atenção e concentração do indivíduo.


Fotografia 6: Integrantes do GERR/OpEsp do Batalhão Tonelero conduzindo procedimento de varredura na Casa de Tiro em Compartimento localizada na base da OM em Campo Grande, Rio de Janeiro. (Foto: Rodney Lisboa). 

Fenômenos como a ativação, a ansiedade, o estresse, e o medo, estimulam a porção simpática do SNA (Sistema Nervoso Autônomo), que funciona como um sistema de emergência mobilizando os recursos necessários para emitir uma resposta adequada às situações de estresse. Durante a prática de atividade física ou experimentando fortes emoções, uma série de impulsos transmitidos ao longo da porção simpática do SNA controlam diversos órgãos internos preparando-os para responder à denominada "hipótese de luta e fuga”. A sequência de eventos que leva às respostas de luta e fuga, começam por uma informação relacionada a situações de perigo que é captada pelo SNC a partir de estímulos emitidos pelo ambiente. Na parte externa do cérebro (córtex cerebral) a informação passa por três estágios de processamento (identificação, avaliação e tomada de decisão), cujo resultado influenciará nos comportamentos subsequentes que envolve a interação com o hipotálamo e a hipófise (localizadas na base do cérebro), bem como com as glândulas suprarrenais.
Após receber informações que indiquem sinal de perigo, o córtex cerebral comunica-se com o hipotálamo, que por sua vez incita a hipófise e as glândulas a produzirem hormônios fundamentais para as respostas de luta e fuga. A betaendorfina (produzida pela hipófise) exerce um papel de entorpecimento das percepções de dor. 
Atuando em conjunto com a adrenocorticotrofina (produzida pela hipófise), a adrenalina e a noradrenalina (produzidas pelas glândulas suprarrenais) aguçam o pensamento e prolongam a memória relacionada ao evento estressante, desempenhando efeito supressivo sobre o sistema imunológico. Os hormônios suprarrenais permanecem sendo produzidos durante todo o período de tensão, garantindo o estado de alerta do corpo até o término da crise ou mediante estabelecimento de exaustão pela elevada descarga de impulsos simpáticos.
A avalanche de eventos metabólicos ocasionada pela estimulação da porção simpática da SNA durante uma situação de estresse de longa duração é denominada SAG (Síndrome de Adaptação Geral), e impõe certos padrões de respostas fisiológicas que embora possam variar de pessoa para pessoa apresentam similaridades, entre os quais citamos: 

  • O aumento da frequência cardíaca e da pressão sanguínea para suprir as necessidades do cérebro (favorecer a concentração e o raciocínio) e dos diferentes grupos musculares (permitindo pronta resposta motora); 
  • O ciclo respiratório aumenta a fim de transportar maior quantidade de oxigênio para as células (gerando energia para auxiliar na situação de emergência); 
  • As reservas de açúcar (glicose e ácidos graxos) armazenadas no fígado são liberadas na corrente sanguínea para fornecer quantidade adicional de energia aos músculos; 
  • As glândulas sudoríparas e suprarrenais aumentam sua capacidade de secretar; 
  • As glândulas salivares e digestórias reduzem sua capacidade de secretar comprometendo o peristaltismo (trato digestório) e prejudicando a digestão.

Fotografia 7: Componentes do Comando Jungla (unidade especial da Polícia Antinarcóticos colombiana) participam de adestramento de entrada tática na Base da Força Aérea norte-americana situada em Eglin, estado da Florida. (Fonte: disponível em: http://www.defense.gov/Media/Photo-Gallery?igphoto=2001321683 Acesso em: 27 abr. 2016).

Nas manobras de varredura empreendidas pelo destacamento de Assalto, os fenômenos fisiológicos descritos constituem uma evidência proveniente da expectativa do confronto armado. Em ações desse tipo o tempo se confunde com o espaço e todos os sentidos se alteram em função de um efeito chamado “Visão de Túnel”. Estando sob a influência desse efeito, tudo o que os operadores veem e ouvem está relacionado com o foco da atenção. Para os membros do destacamento de Assalto, a percepção acerca do combate ocorre em um tempo com duração muito lenta se comparado ao tempo real. Assim, por ocasião da visão de túnel, ocorrida em virtude da concentração total e da movimentação controlada, lenta e gradativa, o que parece ser meia hora não passa de alguns poucos minutos. Cabe salientar, que esse efeito ocorre em virtude da descarga de adrenalina secretada pelas glândulas suprarrenais que inundam o corpo mediante estímulo da porção simpática do SNA, limitando sensações de cansaço ou dor (comprometedoras da performance) por ocasião do estado de alerta a que o corpo encontra-se submetido.