terça-feira, 5 de junho de 2018

Emprego da Doutrina F3EAD em Apoio às Operações Especiais (Parte 1)

Adaptação do texto escrito originalmente por Charles Faint & Michael Harris, publicado em 31 de janeiro de 2012 no Small Wars Journal. (Disponível em: http://smallwarsjournal.com/jrnl/art/f3ead-opsintel-fusion %E2%80%9Cfeeds%E2%80%9D-the-sof-targeting-process Acesso em: 28 mai. 2018). 


Fotografia 1: Cena do filme "12 Heróis" (12 Strong, 2018), que retrata a história da primeira equipe de Special Forces (Forças Especiais) do Exército dos EUA enviada ao Afeganistão após os atentados de 11 de setembro de 2001, com a finalidade de convencer os líderes da Aliança do Norte a unirem forças no combate ao Talebã e à al-Qaeda. (Fonte: Disponível em: http://www.sky.com/movie/12-strong-2018 Acesso em: 30 mai. 2018). 

Projetada para ser utilizada pelas FOpEsp (Forças de Operações Especiais) norte-americanas em missões de Ação Indireta, a doutrina F3EAD (Find, Fix, Finish, Exploit, Analyze and Disseminate [Localizar, Ajustar, Finalizar, Explorar, Analisar e Disseminar]) surgiu para contrariar a crescente ameaça comunista na América Latina na década de 1980
Também conhecida pelo termo “Feed”, esta metodologia é uma versão da doutrina Targeting (Segmentação), processo pelo qual ocorre a seleção de alvos a serem engajados dentro da Área de Responsabilidade (área geográfica associada na qual um comandante combatente geográfico tem autoridade para planejar e conduzir operações) ou Áreas de Influência (área geográfica em que um comandante é diretamente capaz de influenciar operações por manobras ou sistemas de apoio de fogo normalmente exercendo comando ou controle) de um componente militar em decorrência de um conflito e/ou crise.
Operando em rede, a doutrina Targeting enfatiza a identificação dos HPT (High Payoff Target [Alvos de Prejuízo Elevado]) combinando um conjunto de ações letais e não-letais apropriadas para cada um desses alvos no intuito de criar efeitos específicos e desejados compatíveis com os requisitos operacionais e em conformidade com os objetivos do Comandante. Cabe à esse sistema, a tarefa de identificar e selecionar recursos que proporcionam maior vantagem ao inimigo e os quais as forças adversárias não podem se dar ao luxo de perder. Além disso, é de responsabilidade do método Targeting a tarefa de vincular os efeitos desejados às ações a serem desempenhadas pelas Forças Amigas.


Figura 1: As cinco fases que compõem o "Ciclo de Inteligência". (Fonte: Disponível em: https://countuponsecurity.com/2015/08/15/the-5-steps-of-the-intelligence-cycle/ Acesso em: 30 mai. 2018).

Por sua vez, a doutrina F3EAD é um sistema de rede que permite às FOpEsp a capacidade de antecipar e prever ações realizadas por tropas inimigas, identificando, localizando e direcionando forças mediante exploração de dados de inteligência (potencial de combate adversário) obtidos por ocasião da captura de pessoal e material. A base para o êxito da metodologia F3EAD consiste na simbiose entre as funções de Inteligência e Operacional em todo os processos conduzidos pelas FOpEsp. Nesse sentido, os decisores estabelecem alvos prioritários, a função de Inteligência fornece o direcionamento para o alvo, enquanto a função Operacional executa as ações levadas à efeito como uma (OpEsp) Operação Especial.
Esta relação simbiótica, permite que a função de Inteligência compreenda, antecipe e busque atender às necessidades da função Operacional de modo a favorecer a agilidade das ações, permitindo aos decisores, em todos os níveis de condução da guerra/crise (Político, Estratégico, Operacional e Tático), dispor das condições necessárias para planejar e executar operações contra o inimigo sem que o mesmo possa reagir adequadamente. Dispondo dessa capacidade, as Forças Amigas têm condições de ditar o ritmo e definir as condições operacionais.
O F3EAD é uma evolução natural do Targeting, combinando aspectos do ciclo de inteligência e planejamento operacional convencionais com o conjunto de técnicas e táticas emergentes, assimilados em procedimentos desenvolvidos em operações de contingência realizadas em todo o mundo.


Fotografia 2: Operador das Special Forces (Forças Especiais) do Exército norte-americano emprega dispositivo de comunicação multicanais de alto desempenho no campo de batalha. (Fonte: Disponível em https://americansecuritytoday.com/harris-wins-us-special-ops-contract-next-gen-manpack-radios-video/ Acesso em: 30 mai. 2018). 

Embora as FOpEsp estejam melhor preparadas para se valerem das vantagens ofertadas pelo método F3EAD (devido à sua adaptabilidade organizacional, treinamento especializado e recursos exclusivos), essa metodologia não é inovadora nem exclusiva das unidades militares de elite. Nos EUA, o F3EAD constitui parte dos programas básicos de treinamento visando a formação de pessoal na especialidade Inteligência.
Uma diferença fundamental entre a doutrina convencional de Targeting e a F3EAD refere-se ao fato de que a metodologia convencional concentra-se, sobretudo, nas operações de Ação Direta (AD) executadas contra HPTs (levadas à efeito com a finalidade de causar efeitos letais de modo a ocasionar ao inimigo grande dano ou destruição/eliminação), enquanto o método F3EAD adequa-se tanto às AD quanto às Ações Indiretas (AI), que por sua vez priorizam os efeitos não letais. Ao contrário das metodologias tradicionais de Targeting, que direcionam esforços para a etapa "finalizar", uma vez que os conflitos passados buscavam a destruição física das forças inimigas e sua infraestrutura à fim de minar com sua vontade de resistir, o principal esforço do método F3EAD encontra-se voltado para as etapas “explorar, analisar e disseminar”. Nesse contexto, é essencial reconhecer que a natureza da guerra mudou e encontra-se em constante evolução.
Na denominada “Era da Informação” os conflitos se prolongam e o espectro da ameaça apresenta caráter variável, alternando oponentes que lançam mão de métodos adaptativos e assimétricos e adversários que dispõem de poder de combate suficiente para empreender formas convencionais e simétricas de enfrentamento. Nesse cenário, destacam-se a guerra em rede, os atores não-estatais e a aversão ao risco, como determinantes para que o esforço principal não pode se limite à “derrota” das forças inimigas no sentido tradicional da “Guerra de Atrito”.
No âmbito da guerra travada no século XXI, é importante perceber o processo F3EAD como uma rede com os diferentes elementos do processo ligados diretamente uns aos outros e em fusão com as funções de Inteligência e Operacional. O ciclo é contínuo, mas não necessariamente congruente, e as etapas geralmente são omitidas ou encurtadas para que o processo acompanhe a “velocidade” da guerra.

Figura 2: Etapas do processo F3EAD. (Fonte: Disponível em: http://smallwarsjournal.com/jrnl/art/f3ead-opsintel-fusion %E2%80%9Cfeeds%E2%80%9D-the-sof-targeting-process Acesso em: 28 mai. 2018). 

Continua...





domingo, 20 de maio de 2018

No Coração da Selva: Ação dos Comandos Jungla da Policia Nacional da Colômbia

Texto elaborado por Francisco Paulo Costa da Silva*  


Fotografia 1: Os Comandos Junglas da Polícia Nacional da Colômbia são tradicionalmente suportados por helicópteros modelo Black Hawk. (Fonte: Disponível em: https://www.policia.gov.co/especializados/jungla Acesso em: 18 mai. 2018).

A Colômbia atualmente passa por um processo de consolidação de paz com o movimento guerrilheiro FARC (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia]), que possivelmente levará a uma diminuição das ações insurrecionais na selva daquele país. É bem sabido que há muito tempo as forças policiais travam combates diuturnos contra a guerrilha e o tráfico de drogas, merecendo destaque especial os Comandos Junglas, unidade que tem como missão principal, planejar e executar operações contra o narcotráfico, capturar delinquentes das famosas Bandas Criminales (quadrilhas especializadas no tráfico de drogas) e combater as atividades guerrilheiras em meio rural.
A origem dos Comandos Jungla, remonta ao final da década de 80, no qual militares ingleses, especificamente membros do SAS (Special Air Service [Serviço Aéreo Especial]), das forças armadas Britânicas, vieram até à Colômbia com a finalidade de treinar policiais para combater a guerrilha e o narcotráfico utilizando-se de técnicas especiais. Nessa época, as ações de Pablo Escobar estavam se tornando mais ousadas, carecendo de um combate mais efetivo e profissional por parte das forças legais. Havia também rumores de que membros do IRA (Irish Republican Army [Exército Republicano Irlandês]), guerrilha separatista que lutava contra os ingleses na Irlanda do Norte, estavam realizando treinamento com as FARCs. A vinda dos militares ingleses foi uma decisão conjunta com o governo americano haja vista uma crescente influência dos EUA no cenário da política interna colombiana.


Fotografia 2: Quadros operacionais dos Comandos Jungla em procedimento de patrulha pelo interior da Colômbia na busca por laboratórios de processamento de cocaína. (Fonte: Disponível em: https://www.taringa.net/comunidades/colombia/6518572/Fuerzas-Especiales-Comandos-Jungla-Policia-Nacional.html Acesso em: 18 mai. 2018).

O curso de Comandos Jungla normalmente é divido em duas edições, a primeira, a nacional, direcionada exclusivamente para policiais colombianos, a segunda, foi efetivada após implementação do Plano Colômbia em 2002 (plano de ajuda econômica e militar dos EUA para combater grupos insurgente e o narcotráfico na Colômbia), com o lançamento do curso Comandos Jungla internacional que teve como objetivo capacitar policiais de países da América Latina nas técnicas de combate ao narcotráfico em ambiente de selva. O curso tem uma duração de quatro meses e meio, na CENOP (Escuela Internacional del Uso de la Fuerza Policial para la Paz [Escola Internacional do Uso da Força Policial para a Paz]) da Polícia Nacional, localizada em San Luis no departamento de Tolima. Os alunos passam por diversas instruções como: operações helitransportadas, operações de combate, patrulhas de reconhecimento especial, sobrevivência, combate em recinto fechado, armamento de dotação dos comandos, operações antidrogas, tomada de campo de cultivo ilícito de cocaína, patrulha rural, orientação e navegação terrestre e outras de interesse da formação dos novos comandos. O curso normalmente tem uma taxa de atrito de 35 a 40 % de desistência, demonstrando um grande nível de exigência em sua execução.


Imagem 1: Emblema dos Comandos Jungla da Polícia Nacional da Colômbia. (Fonte: Disponível em: https://twitter.com/comandosjungla Acesso em: 18 mai. 2018). 

Os Junglas são subordinados à Dirección de Antinarcóticos (Direção Antinarcóticos) da Polícia Nacional da Colômbia. Após o término do curso os novos comandos são distribuídos nas Companhias Antinarcóticos Junglas nas cidades de Bogotá, Santa Marta e Tuluá. Atualmente cada companhia conta com pelo menos 200 policiais. Também existe uma companhia de instrutores Junglas no centro de formação em São Luiz.
A mobilidade dos Comandos Jungla depende dos helicópteros Black Hawks da Polícia Nacional da Colômbia, que atualmente conta com 20 aeronaves, sendo a força policial que mais opera com helicóptero desse porte  no mundo.
Atualmente os Comandos Jungla são assessorados por militares do 7th SFG-A (7th Special Forces Group-Airborne [7º Grupo das Forças Especiais-Aerotransportadas]) do Exército norte-americano e pela DEA (Drug Enforcement Agency [Agência para o Controle/Combate às Drogas]) dos Estados Unidos. O sucesso do Programa Jungla é tão visível, que os antigos instrutores estadunidenses se tornaram assíduos observadores e aprendizes das técnicas de combate que os Comandos Jungla desenvolveram para o ambiente de selva. Juntando a capacidade de transporte fornecida pelos helicópteros Sikorsky UH-60 Black Hawks da polícia nacional com o planejamento detalhado em suas missões, os Junglas se tornaram experts em destruição de laboratório de cocaína, busca e prisão de chefes de cartéis de drogas e, ponta de lança nas operações de neutralização dos grandes líderes das FARCs.
Além das missões de destruição de laboratórios de processamento de coca, os Comandos Jungla se envolveram nas principais operações de neutralização dos chefes das FARC, contribuindo de sobremaneira para o enfraquecimento do grupo guerrilheiro.


Fotografia 3: Dupla de operadores Jungla durante operação de destruição de laboratórios de processamento de cocaína enviada pelos narcotraficantes até as fronteiras com o Brasil e a Venezuela. (Fonte: Disponível em: https://www.infobae.com/america/america-latina/2016/08/03/comandos-jungla-colombianos-destruyeron-104-laboratorios-para-el-procesamiento-de-cocaina/ Acesso em: 18 mai. 2018).

Após quase 30 anos de sua criação os Comandos Jungla vêm se colocando à prova a cada ameaça que surge à segurança colombiana. Depois da assinatura do tratado de paz com as FARCs em 2017, outras ameaças assimétricas surgiram como resultado da desmobilização dos narcoguerrilheiros dissidentes, que não entregaram as armas e continuam a delinquir comercializando drogas com os cartéis mexicanos. Alguns paramilitares desmobilizados na década passada, hoje formam várias Bandas Criminales, que cartelizam toda a produção de drogas em algumas regiões da Colômbia, principalmente na região do Caribe. Uma das maiores ameaças da atualidade é o bando dos Urabenhos, cartel chefiado pelo criminoso de nome Otoniel, que atualmente aterroriza a região, promovendo atos violentos contra à polícia e à população do país. Diante da nova situação de segurança interna, desafios novos e antigos se apresentam aos Comandos Jungla: Operações de destruição de laboratórios de cocaína; Engajamento em operações urbanas; Combate aos cartéis organizados e as guerrilhas remanescentes.
A expertise do programa Jungla está sendo difundida para países conflagrados pelo tráfico de drogas, tais como: Honduras, Panamá e México. Com a ajuda técnica de membros do 7th SFG-A, os Comandos Jungla difundem táticas e técnicas especiais no combate ao narcotráfico, ajudando essas nações a combater esse grande flagelo que assola à sociedade nos dias atuais.
Apesar da diminuição da plantação de hectares de coca na Colômbia, o comércio dessa droga ainda figura como um dos negócios mais lucrativos do mundo. Diante disso, novos atores surgirão para disputar esse importante mercado para suprir as necessidades dos cartéis mexicanos em traficar para os EUA. Diante desse cenário, a Colômbia continua figurar como fonte de disputas pela produção da droga.


Fotografia 4: Quadros operacionais do Comandos Jungla embarcados em uma das aeronaves Black Hawk que fornecem apoio aéreo à unidade. (Fonte: Disponível em: https://www.taringa.net/comunidades/colombia/6518572/Fuerzas-Especiales-Comandos-Jungla-Policia-Nacional.html Acesso: 18 mai. 2018).


Vídeo 1: Apresentação em vídeo sobre os Comandos Jungla da Polícia Nacional da Colômbia. (Fonte: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-6_kLfrvU-g Acesso em: 18 mai. 2018).


Francisco Paulo Costa da Silva é policial federal desde 2004, ano em que concluiu o curso de papiloscopista na Academia Nacional de Polícia. Atualmente exerce a função de líder da equipe de operadores aerotáticos (atiradores da porta do helicóptero) da CAOP (Coordenação de Aviação Operacional) da Polícia Federal (PF). É graduado em História pela Universidade de Pernambuco e cursa pós-graduação em Relações Internacionais pela Damásio Educacional. Na PF participou do curso de operações aerotáticas, bem como do curso de atirador designado aerotático. Frequentou o Curso de Comandos Jungla (Polícia Nacional da Colômbia) além do curso de operações antidrogas pela School of the Americas (Escola das Américas) atual WHINSEC (Western Hemisphere Institute for Security Cooperation, ou Instituto do Hemisfério Ocidental para Cooperação em Segurança). Cursou o Estágio de Operação e Sobrevivência em Área de Caatinga (72º BIMtz [72º Batalhão de Infantaria Motorizada]) do Exército Brasileiro e o Estágio de Atirador de Precisão do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais da PM-RJ). 





sábado, 12 de maio de 2018

Cerimônia de Lançamento do Livro "Guardiões de Netuno", obra historiográfica sobre o GRUMEC da Marinha do Brasil


Fotografia 1: O autor ladeado pelos oficiais generais (Almirantes) da Marinha presentes na cerimônia de lançamento do livro "Guardiões de Netuno: Origem e Evolução do Grupamento de Mergulhadores de Combate da Marinha do Brasil". (Fonte: Acervo de Rodney Lisboa).


Na tarde do último dia 11/05, ocorreu no Pátio d`Armas do Museu Naval, no Rio de Janeiro, a cerimônia de lançamento do livro “Guardiões de Netuno: Origem e Evolução do Grupamento de Mergulhadores de Combate da Marinha do Brasil”, escrito pelo Prof. Ms. Rodney Lisboa. Na ocasião do evento, compareceram ilustres autoridades militares e civis, familiares do autor, amigos, além de convidados de diferentes segmentos da sociedade brasileira.
Após a abertura oficial, foi concedida a palavra ao Capitão de Fragata Michael Vinícius AGUIAR, comandante do GRUMEC, o qual destacou o importante papel desempenhado pela unidade e enalteceu a iniciativa do autor. 

Fotografia 2: Capitão de Fragata Michael Vinícius AGUIAR, comandante do GRUMEC, no discurso de abertura do evento. (Fonte: Acervo de Rodney Lisboa).

Na sequência, convidado a explanar sobre a obra, o Almirante de Esquadra BENTO Costa Lima de Albuquerque Júnior, prefaciador do livro, parabenizou o autor por abraçar o desafio de escrever sobre a atividade do Mergulho de Combate. Posteriormente, o Contra Almirante Carlos Eduardo Horta ARENTZ, primeiro MEC a alcançar a graduação de Almirante no quadro de oficiais generais da Marinha do Brasil e responsável pelo texto de apresentação do livro, saudou o autor e sua família, além de exaltar a capacidade operativa dos quadros operacionais da unidade e ponderar sobre a relevância da atividade MEC para o Poder Naval brasileiro. 

Fotografia 3: Palavras do Almirante de Esquadra BENTO Costa Lima de Albuquerque Júnior, autor do Prefácio do livro. (Fonte: Acervo de Rodney Lisboa). 

Assumindo a palavra, o autor proferiu uma breve apresentação abordando a trajetória de publicação da obra. O autor agradeceu a presença dos convidados presentes, o apoio ofertado por sua família, o suporte do GRUMEC, da Marinha do Brasil, da Diagrarte Editora, bem como das instituições patrocinadoras (Atrasorb; NT2; USE MILITAR; CS3).
O autor foi convidado a presentear com um exemplar do livro o Suboficial Luís CLÁUDIO do Nascimento Pestana, Praça MEC mais antigo no serviço ativo, antes de posar para a foto oficial junto às autoridades da Marinha presentes e assumir o posto para iniciar uma celebrada sessão de autógrafos com todos os convidados interagindo e repercutindo o valor de uma obra dessa natureza para a literatura nacional.
Na ocasião do evento, o GRUMEC promoveu uma pequena exposição de armas e equipamentos empregados pela unidade na condução de suas atividades operativas.

Fotografia 4: Prof. Ms. Rodney Lisboa, autor do livro do GRUMEC, expõe texto de apresentação sobre a trajetória que levou à publicação da obra. (Fonte: Acervo de Rodney Lisboa).

Abaixo, transcreve-se as palavras do Prof. Ms. Rodney Lisboa no texto proferido por ocasião da cerimônia de lançamento do livro do GRUMEC:
Ilustres autoridades militares e civis, 
Distintos convidados, 
Inicialmente, gostaria de externar meus agradecimentos a todos que vieram prestigiar o lançamento desta obra singular. Na qualidade de autor do livro que narra a história de uma das mais conceituadas unidades militares de elite do Brasil, sinto-me honrado em recebê-los neste espaço centenário e reverenciado pela Marinha do Brasil. 
A história deste livro tem suas origens muito antes do trabalho acadêmico que o precedeu, resultante da sucessão de influências absorvidas desde a infância, consolidadas na adolescência, exploradas e aprimoradas na fase adulta.  
Ainda que não pertença a uma família com tradição militar, minhas recordações mais remotas emergem com um forte apelo marcial, talvez um chamado interno que eu não soube interpretar enquanto amadurecia, uma vez que segui por caminhos diferentes daqueles que conduziam à caserna. 
Em 1982 John James Rambo introduziu as Operações Especiais em minha vida, despertando a curiosidade em relação a modalidade de guerra não convencional. 
Na década seguinte, foi a vez dos Tenentes James Curran e Dale Hawkins se valerem da sétima arte para revelar o conjunto de ações que caracterizam a atividade do Mergulho de Combate.  
Ávido por absorver mais informações genéricas sobre as Operações Especiais, e particulares sobre o Mergulho de Combate, busquei na literatura, no cinema e em qualquer outra fonte de referência, os esclarecimentos que permitiriam ampliar a percepção que tinha sobre esses temas. 
No decorrer desse processo, entre tantos acontecimentos estudados, fui transportado para o Norte da África onde operadores do SAS britânico executavam ataques relâmpago contra aeronaves da Luftwaffe aterrissadas em improvisados campos de pouco. 
Testemunhei os mergulhadores italianos da 10ª Flotilha MAS penetrarem as defesas portuárias no Mediterrâneo conduzidos pelos torpedos Maiale, com o propósito de executar operações de sabotagem fixando minas magnéticas explosivas nos cascos de embarcações britânicas que ofereciam suporte às tropas Aliadas. 
Acompanhei o 5° Grupo de Forças Especiais norte-americano conduzir operações de Guerra Irregular junto aos nativos sul-vietnamitas que se opunham às tropas do Vietnã do Norte na densa selva do sudeste asiático. 
Presenciei a ação contraterrorista realizada por quadros operacionais israelenses do Sayeret Matkal na operação de resgate de reféns do voo AF 139 da Air France, levado a Entebbe, antiga capital de Uganda, por ocasião do sequestro perpetrado por extremistas da Frente Popular para a Libertação da Palestina. 
Foi nesse longo processo de conscientização que tomei conhecimento acerca da existência do Grupamento de Mergulhadores de Combate da Marinha do Brasil. 
Na época em que o GRUMEC se revelou para mim, o acaso já havia me direcionado para a vida civil e a carreira docente. Entretanto, meus compromissos pessoais e profissionais jamais representaram empecilho para que pudesse incrementar o aprendizado inerente às Operações Especiais. 
Anos mais tarde, quando minha carreira docente sofreu um revés, não hesitei em decidir, conscientemente, por retornar para o banco da escola novamente na condição de aluno. O curso de especialização em História Militar iniciado em 2011 me aproximou do GRUMEC, levando-me a desenvolver um estudo acadêmico que acabaria por nortear a produção do livro que hoje está sendo celebrado. 
Em 2014, quando fui aprovado no programa de Mestrado da conceituada Escola de Guerra Naval, pareceu-me lógico tomar o GRUMEC uma vez mais como objeto de estudo para avultar meu entendimento em relação as operações militares não ortodoxas. 
Analisando os anos passados em perspectiva, sou levado a acreditar que minhas escolhas oportunizaram possibilidades ímpares e das quais me orgulho de ter conquistado: como o honroso convite para figurar entre os quadros do estimado Instituto de Geografia e História Militar do Brasil; a concessão do título de Mergulhador de Combate honorário concedido pelo GRUMEC; a medalha Amigo da Marinha outorgada pela Força Naval brasileira; além do reconhecimento, entre os diletos membros da comunidade de Operações Especiais, de minha contribuição como pesquisador para a valorização, reconhecimento e projeção das unidades militares de elite nos diferentes segmentos da sociedade brasileira. 
Concluo dedicando esta obra aos Mergulhadores de Combate do passado, presente e futuro. Guerreiros do mar que de forma digna e obstinada colocam suas habilidades singulares a serviço da Marinha, assumindo o régio compromisso de defender o Brasil, mantendo-o seguro e soberano para que as gerações de brasileiros que se sucedem possam trilhar o caminho de uma nação orgulhosa de seu povo e vitoriosa por seus feitos. 
FORTUNA AUDACES SEQUITUR!

Fotografia 5: O autor de "Guardiões de Netuno" autografa o exemplar do Contra Almirante Carlos Eduardo Horta ARENTZ, autor do texto de apresentação do livro. (Fonte: Acervo de Rodney Lisboa). 

Estiveram presentes à cerimônia de lançamento do livro do GRUMEC as seguintes autoridades da Marinha do Brasil:
  • Almirante de Esquadra BENTO Costa Lima de Albuquerque Júnior (Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha).
  • Vice Almirante (Ref.) José Carlos MATHIAS (Departamento Patrimônio Histórico e de Documentação da Marinha)
  • Vice Almirante Antônio Fernando GARCEZ Faria (Diretoria de Hidrografia e Navegação)
  • Contra Almirante Carlos Eduardo Horta ARETZ (Ministério da Defesa)
  • Vice Almirante Marcos Sampaio OLSEN (Diretoria de Obras Civis da Marinha)
  • Contra Almirante RALPH Dias da Silveira Costa (Centro de Instrução Almirante Alexandrino)
  • Contra Almirante HUMBERTO Caldas da Silveira Júnior (Coordenadoria-Geral do Programa de Desenvolvimento do Submarino com Propulsão Nuclear)
  • Contra Almirante ALAN Guimarães Azevedo (Força de Submarinos)
  • Contra Almirante Luiz Roberto Cavalcante VALICENTE (Centro de Comunicação Social da Marinha)

Também compareceram ao evento os ex-encarregados/comandantes do GRUMEC:
  • Capitão de Fragata (Ref.) Theotônio Chagas TOSCANO de Brito
  • Contra Almirante Carlos Eduardo Horta ARENTZ
  • Capitão de Corveta (Ref.) Claudio José Costa de LIMA
  • Capitão de Mar e Guerra (Res.) Orlando ÉRICO Lacê de Oliveira Lima
  • Capitão de Mar e Guerra (Res.) DANIEL Silvino Costa Nogueira
  • Capitão de Mar e Guerra (Res.) ÍTALO Gama Franco Monsores

Fotografia 6: Durante a cerimônia de lançamento do livro do GRUMEC, o autor foi prestigiado por sua esposa e seus pais. (Fonte: Acervo de Rodney Lisboa).

Fotografia 7: Prof. Ms. Rodney Lisboa ladeado pelos Mergulhadores de Combate da Marinha do Brasil. (Fonte: Acervo de Rodney Lisboa).




quinta-feira, 5 de abril de 2018

Lançamento do Livro sobre a História dos Mergulhadores de Combate da Marinha do Brasil


Fotografia 1: Quadros operacionais do GRUMEC durante a condução de um exercício de infiltração marítima. (Fonte: Dominic André/Flashbang Magazine). 

Guardiões de Netuno: Origem e Evolução do Grupamento de Mergulhadores de Combate da Marinha do Brasil

O Mergulho de Combate (MEC) constitui uma modalidade de guerra não convencional cujas origens se confundem com a gênese da guerra. Empregado em inúmeros conflitos travados no decorrer dos diferentes períodos históricos, o MEC teve um grande impulso em várias campanhas travadas por ocasião da Segunda Guerra Mundial, evoluindo substancialmente em termos metodológicos e tecnológicos desde então. 
No Brasil, em particular, a atividade MEC foi introduzida na Marinha na década de 1970 como resultado da experiência adquirida por um grupo de militares enviados aos EUA em 1964 na condição de aspirantes ao programa de formação em demolição submarina promovido pela Marinha norte-americana. Provendo suporte às operações de desembarque anfíbio realizadas pela Esquadra nacional, o MEC superou os sucessivos períodos de instabilidade político-econômica que comprometeram o desenvolvimento da sociedade brasileira na segunda metade do século passado. Utilizando documentos escritos como ponto de partida para a elaboração deste estudo, alicerçando a análise do material coletado em fontes bibliográficas pertinentes, o presente trabalho teve por objetivo investigar a série de eventos que balizaram a introdução e o desenvolvimento do MEC na Marinha do Brasil, identificando sua relevância para a Armada e o papel exercido pela unidade em questão entre 1964 e 2018. 

Fotografia 2: Imagem promocional para divulgação do lançamento do livro "Guardiões de Netuno: Origem e Evolução do Grupamento de Mergulhadores de Combate da Marinha do Brasil". (Fonte: Rodney Lisboa).

No intuito de identificar a crescente importância do MEC para o Poder Naval brasileiro e para a política de segurança das águas jurisdicionais brasileiras frente às ameaças estatais e não estatais esta investigação foi desenvolvida pelo Prof. Rodney Lisboa de modo a correlacionar a evolução estrutural, técnica e metodológica da atividade MEC no país com os diferentes períodos históricos da sociedade nacional e internacional no período em questão, na tentativa de compreender o papel assumido pelo MEC diante do novo cenário que coloca o Brasil em condição destacada na comunidade internacional.
Fracionado em três sessões distintas, no primeiro capítulo o livro aborda os pressupostos atinentes às Operações Especiais; dedicando-se a narrar, no segundo capítulo, os eventos significativos que balizaram o MEC em âmbito internacional no decorrer dos diferentes períodos históricos; encerrando com a narrativa de 50 anos da atividade MEC no Brasil (1964-2018) no terceiro capítulo. A obra dedica-se ainda a apresentar uma cronologia fotográfica de mais de 40 imagens que ilustram momentos distintos de uma das unidades de elite brasileiras mais respeitadas no cenário doméstico e externo.

Editora: Diagrarte (www.diagrarte.com.br)

Número de páginas: 272

Tamanho: 15,5 X 23cm

Valor: R$80,00 + despesas de postagem.

Manifeste sua intenção de compra pelo e-mail: rodneymec27@gmail.com





FORTUNA AUDACES SEQUITUR!




terça-feira, 13 de março de 2018

Intervenção Federal no Rio de Janeiro: A Necessidade de Adequar as Regras de Engajamento ao Cenário de Enfrentamento

Texto elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa

Fotografia 1: Operadores das Forças de Operações Especiais (FopEsp) do Exército Brasileiro participam de uma simulação contraterrorista em uma estação de trem no Rio de Janeiro durante a preparação para o esquema de segurança dos Jogos Olímpicos realizados na capital fluminense. (Fonte: Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2016/07/19/franca-nega-que-brasileiro-tenha-planejado-atacar-franceses-durante-a-rio-2016.htm Acesso em: 12 mar. 2018).


A Intervenção Federal no estado do Rio de Janeiro, instituída em 16 de fevereiro de 2018 por iniciativa do Presidente da República e aprovada pela Câmara dos Deputados e Senado Federal, tem a finalidade de coibir a escalada de violência perpetrada pelo crime organizado de modo a promover a segurança na capital fluminense, região metropolitana e interior do estado. Nesse contexto, como medida emergencial, as Forças Armadas (FFAA) podem ser empregadas no intuito de por termo à crescente sensação de insegurança que leva ao comprometimento da ordem pública. Em apenas um ano (de janeiro de 2017 a janeiro de 2018) o número de tiroteios na região metropolitana do Rio aumentou em 117%, enquanto a quantidade de mortes violentas no estado aumentaram 44% em apenas cinco anos, chegando a computar inacreditáveis 6.731 óbitos. 
Assim como ocorre em outras regiões do país, o Rio de Janeiro experimenta o fenômeno conhecido como Black Spots (Buracos-Negros), expressão idealizada por Bartosz Hieronim Stanislawski, Cientista Político e Diretor Assistente do Moynihan Institute of Global Affairs (instituição vinculada à Universidade de Syracuse, nos EUA), para designar as áreas localizadas em um Estado sobre as quais a administração governamental falha negligenciando ou mesmo deixando de exercer formas básicas de gestão pública. Normalmente essas áreas são localizadas em regiões periféricas, e como consequência da “ausência” do Estado atores não estatais (crime organizado, como é o caso do Rio) passam a impor normas sociais paralelas valendo-se da violência na tentativa de expandir sua influência e obter lucro com suas atividades ilícitas.
É fundamentalmente importante esclarecer que a recorrente incapacidade demonstrada pelo governo fluminense ao lidar com os problemas relacionados à Segurança Pública possibilitou uma ousadia crescente por parte das diferentes facções do crime organizado que atuam no Rio, gerando uma crise institucional sem precedentes para as autoridades do estado. 
Torquato Jardim, atual Ministro da Justiça, salientou em entrevista concedida ao jornal Correio Brasiliense (publicada na edição do dia 20/03/2018) que o Brasil está em guerra contra inimigos internos. Ainda que o governo brasileiro evite empregar esse termo para caracterizar a atual situação vivenciada pelo Rio de Janeiro, o tipo de enfrentamento que as facções criminosas fluminenses impõe às autoridades não é o modelo tradicional de guerra (travada por atores estatais que se antagonizam). Na prática o tipo de conflito em questão refere-se à modalidade de “Guerra Irregular”, caracterizada por qualquer conflito protagonizado por um ator armado não estatal. No livro “Guerra Irregular: terrorismo, guerrilha, e movimentos de resistência ao longo da história”, o Coronel Alessandro Visacro, atual Chefe da Seção de Doutrina do COpEsp (Comando de Operações Especiais) do Exército Brasileiro, destaca: 

A guerra irregular, com grande frequência, se desenvolve sem que seja declarada, reconhecida ou sequer percebida. Por vezes, é oculta. Mas é invariavelmente incompreendida pelo Estado (incluindo parcela considerável de suas forças armadas) e por diferentes segmentos da sociedade civil.

Entrevistado nos programas GloboNews Painel (exibido em 17/02/2018) e Canal Livre (exibido em 05/03/2018), o General-de-Exército da reserva Augusto Heleno Ribeiro Pereira tem defendido a condução de ações pontuais e precisas valendo-se da expertise adquirida pelas Forças de Operações Especiais brasileiras (vocacionadas para a condução da Guerra Irregular) no intuito de impor sucessivos óbices ao ímpeto do crime organizado, bem como evitar ou reduzir ao máximo os denominados “efeitos/danos colaterais” (situações adversas acidentais ou involuntárias causadas a pessoas e/ou objetos que não se enquadram como alvos lícitos). O General Heleno alerta, entretanto, para a necessidade de haver Regras de Engajamento e Instrumentos Legais que amparem o necessário uso da força durante as ações militares a serem realizadas por ocasião da Intervenção Federal no Rio de Janeiro.

Fotografia 2: Quadros operacionais do DOPaz (Destacamento de Operações de Paz) do Exército Brasileiro executam procedimento de varredura nas vielas de uma das comunidades de Porto Príncipe, capital do Haiti. Por ocasião da MINUSTAH, as Regras de Engajamento adotadas pelas tropas à serviço da ONU eram norteadas pelo Capítulo 7 da Carta das Nações Unidas. (Fonte: Disponível em: http://www.planobrazil.com/onu-quer-levar-ao-congo-experiencia-brasileira-no-haiti/ Acesso em: 12 mar. 2018). 

Especificamente no que se refere às Regras de Engajamento, é pertinente enfatizar que elas consideram as diretrizes que definem as circunstâncias e limitações relacionadas aos níveis do uso da força por contingentes militares em uma determinado engajamento. Conforme o contexto operacional, tais regras podem ser bastante flexíveis, partindo da emissão de uma ordem verbal até o emprego de força letal. 
No contexto da Segurança Pública, o nível do uso da força por unidades policiais é norteado pela Lei n° 13.060 de 22 de dezembro de 2014, bem como pela Portaria Interministerial n° 4226 de 31 de dezembro de 2010. Ambos instrumentos consideram que o agente policial deve valer-se do emprego gradativo da força, invariavelmente iniciando sua abordagem com a menor força possível (ordem verbal) na tentativa de solucionar o problema. Na eventualidade do problema persistir, o uso escalonado deve prosseguir utilizando força física sem disparo de arma de fogo, sendo esta acionada somente como último recurso disponível.
Preparadas para as condições de enfrentamento características do conflito armado travado em situação de guerra, as Forças Singulares brasileiras se deparam com um problema por ocasião da Intervenção Federal no Rio de Janeiro. Por não se aplicarem as normas da guerra ao cenário de enfrentamento fluminense, uma vez que o Brasil e o Rio não se encontram formalmente em guerra, as FFAA submetem-se ao mesmo conjunto de normas que regulamentam o uso da força pelos agentes de Segurança Pública. Diferente do que ocorreu nas várias situações nas quais as FFAA foram empregadas no território nacional em operações de GLO (Garantia da Lei e da Ordem), executando um trabalho preventivo e dissuasório de caráter policial, a Intervenção Federal requer por parte das Forças de Segurança uma postura mais “enérgica” que imponha sucessivos golpes ao crime organizado, penalizando-o de um modo tal que suas iniciativas sejam refreadas.  
É necessário que a sociedade brasileira compreenda o status de excepcionalidade da Intervenção Federal, ampliando sua percepção para a necessidade de adotar medidas igualmente atípicas. Nesse sentido, é imperativo que as FFAA tenham “Poder de Polícia” com Regras de Engajamento adequadas à demanda operacional, sendo imprescindível que o sistema judiciário avalize um conjunto de medidas para resguardar/proteger as FFAA no desempenho das funções operativas realizadas no âmbito da intervenção. Tanto as tropas regulares quanto as FOpEsp das FFAA têm capacidade e competência para atender às tarefas operacionais que lhe forem imputadas em razão da ação federal no Rio de Janeiro, mas é crucial que o Estado brasileiro crie condições favoráveis e a sociedade contribua para que os objetivos da intervenção sejam alcançados. 




terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Emprego das Tropas Especiais do Exército Brasileiro na Intervenção Federal do Rio de Janeiro

Reprodução da primeira parte da matéria assinada por Vera Araújo, Fábio Teixeira e Rafael Galdo apresentada na edição de Domingo, 25/02/2018, do jornal O GLOBO.

Fotografia 1: Elementos de Operações Especiais do Exército Brasileiro participam de operação no Complexo de Favelas da Rocinha após confronto entre traficantes pelo controle de área. (Fonte: Fernando Frazão/Agência Brasil). 


“FANTASMAS” ESTÃO ENTRE NÓS
Tropa especial fará operações de alto risco
Grupo que chegou ao estado para enfrentar o tráfico e as milícias é comparado aos Seals da Marinha americana

Figura 1: Primeira parte da matéria sobre o emprego das Forças de Operações Especiais do Exército na Intervenção Federal do Rio de Janeiro. (Fonte: O GLOBO). 


Submetidos a treinamento de alto nível em Goiânia, os militares são comparados aos Seals da Marinha americana. Eles agiram no Alemão e na Maré, anteriormente, e estão de volta ao Rio Na linha de frente da intervenção federal na segurança do Rio estão militares que pertencem a um grupo de elite que atua em operações especiais, cercadas de sigilo. Preparados para ações antiterror e comparados aos Seals da Marinha americana, eles têm a tarefa de fazer o combate direto a traficantes fortemente armados. Usam equipamentos como óculos de visão noturna, explosivos, fuzis de assalto e metralhadoras .50, de longo alcance. Nos últimos anos, fizeram ações cirúrgicas nos complexos do Alemão e da Maré. Uma tropa que recebe treinamento de alto nível, com sede em Goiânia, chegou ao Rio para ficar na linha de frente da intervenção federal na área da segurança pública do estado, sob o comando do general Walter Souza Braga Netto. Na caserna, entre os militares, seus integrantes são chamados de "fantasmas" por atuarem nas sombras, em operações sempre cercadas de sigilo. O Batalhão de Forças Especiais do Exército conta com aproximadamente 2 mil homens. Não raro, eles são comparados aos Navy Seals da Marinha americana, que mataram Osama bin Laden no Paquistão em 2011. Esses militares, preparados para ações antiterror, têm nas mãos uma missão muito difícil: expulsar o tráfico e as milícias de algumas favelas cariocas.
Coronel da reserva e ex-integrante das Forças Especiais, Fernando Montenegro coordenou a ocupação do Complexo do Alemão, em 2010. Ele explica que o grupo tem um nível de preparo muito superior à média da tropa do Exército. Além de táticas de guerrilha, os "fantasmas" aprendem estratégias de combate à criminalidade urbana durante o período de formação: fazem treinamentos com oficiais do Bope da PM e com militares de unidades especiais de outros países.
É por isso que se espera, nas ruas, um resultado muito diferente dos obtidos até agora pelas operações de Garantia da Lei e da Ordem no Rio. Os integrantes das Forças Especiais passam por um rígido processo de seleção no Forte Imbuí, em Niterói, antes de seguirem para um mínimo de cinco anos de preparação em Goiânia.
- É incomparável a qualidade deles. Eles alcançam uma qualificação extrema não só em nível tático, recebem treinamento de ponta para ações de alto risco em áreas urbanas. Trabalham com inteligência e entendem como funcionam as forças de sustentação de uma guerrilha - afirma Montenegro, acrescentando que a formação visa, em condições normais, a proteger o país contra invasões. - É um treinamento que capacita o militar a suportar situações extremas. Cada integrante das Forças Especiais tem um nível de conhecimento que o permite planejar sabotagens em grandes instalações e até produzir explosivos de forma improvisada.

O símbolo das Forças Especiais foi criado para passar a imagem de que seus homens são os mais temidos do Exército. No brasão dos FEs, como são chamados, aparece uma mão empunhando uma faca. Não por acaso, ela está com uma luva, referência às ações sempre discretas, que não deixam rastros. A lâmina está manchada de vermelho. Até mesmo o fundo do desenho, na cor preta, tem um significado: a tropa, preferencialmente, age à noite. O primeiro grupo de FEs desembarcou no Rio no último dia 16, e, na madrugada de sexta-feira, fez uma incursão à Vila Kennedy antes da chegada de 3 mil homens do Exército à comunidade.

Preparo para Ação em Área de Mata

Os FEs integram uma unidade do Comando da Brigada de Operações Especiais do Exército, que tem em seu brasão uma faca enfiada numa caveira, desenho que inspirou o símbolo do Bope. Mas, enquanto os homens do batalhão da PM inspiraram os filmes da franquia "Tropa de elite", os FEs atuam cercados de mistérios. Fontes ouvidas pelo GLOBO revelam que eles são submetidos a situações extremas durante o processo de formação: chegam, por exemplo, a ser atacados por veteranos que usam óculos de visão noturna em salas escuras, onde os novatos têm o desafio de encontrar uma saída enquanto tentam reagir.
Só militares de carreira podem ser FEs. Se o candidato à tropa de elite do Exército for um sargento, além do período de cinco anos na Academia Militar, ele precisará de mais dois para concluir sua formação. Há ainda três cursos obrigatórios. O primeiro é o básico de paraquedista, que dura seis semanas. Em seguida, começa o de comandos, com carga horária de 800 horas, distribuídas ao longo de quatro meses, durante os quais são ensinadas técnicas de uso de explosivos e de combate e infiltração. A etapa final exige 1.200 horas de treinamento, num período de cinco meses. Montenegro diz que, por mais estranho que possa parecer, a aptidão dos FEs para combates na selva poderá fazer a diferença no Rio:
- Há vários treinamentos que, à primeira vista, parecem não fazer sentido no contexto atual, como salto de paraquedas e mergulho. Mas, no Rio, há grandes extensões de mata nos morros. A polícia não possui a capacidade dos "fantasmas" para atuar nessas áreas. As Forças Especiais têm preparo e equipamentos para isso, como óculos que detectam movimentos em meio à escuridão. Especialistas em helicópteros, eles também têm a habilidade de um sniper para atirar de uma aeronave.
Os FEs são treinados para atuar com discrição absoluta, mas a tropa especial já foi acusada de perder o controle da situação e provocar uma explosão de violência. A tropa foi colocada sob suspeita de envolvimento na morte de oito pessoas no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, em novembro do ano passado. O Comando Militar do Leste, no entanto, nega a participação de "fantasmas" no caso.

Fim da Matéria

Algumas considerações sobre a primeira parte da matéria publicada pelo O GLOBO: 
1°. Os autores citam os SEALs da Marinha norte-americana devido à publicidade angariada pela unidade de elite da Força Naval estadunidense, sobretudo por ocasião da operação que resultou na morte de Osama bin Laden, líder da al Qaeda, organização fundamentalista que perpetrou o atentado terrorista ao território dos EUA em 11 de setembro de 2001. Contudo, os "fantasmas" a que eles se referem em alusão às Forças de Operações Especiais (FOpEsp) da Força Terrestre brasileira têm mais familiaridade com os Rangers e as Special Forces (também conhecidos como Green Berets [Boinas Verdes]), ambas tropas especiais vinculadas ao Exército norte-americano.
2°.  Ao mencionarem o efetivo do 1° BFEsp (1° Batalhão de Forças Especiais) os autores cometem um equivoco, uma vez que o efetivo de 2.000 homens refere-se ao numero de militares à serviço do COpEsp (Comando de Operações Especiais) do Exército Brasileiro, que por sua vez é integrado pelo 1º BFEsp, 1º Batalhão de Ações de Comandos (1º BAC), Batalhão de Apoio às Operações Especiais (BtlApOpEsp), 3ª Companhia de Forças Especiais (3ª CiaFEsp), Companhia de Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear (CiaDQBRN), além do Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOpEsp).
3°. A Brigada de Operações Especiais mencionada pelos autores foi elevada à categoria de Comando de Operações Especiais (COpEsp) em 2014.
4°. O Coronel da Reserva Fernando MONTENEGRO, citado no texto, não coordenou a ocupação do Conjunto de Favelas do Alemão em 2010. Na ocasião sua função foi a de comandar a Força-Tarefa Sampaio, incumbida de pacificar os Complexos do Alemão e da Penha.
5°. Diferente do que destaca o texto do jornal O GLOBO, são os oficiais e não os sargentos que cursam os 5 anos de Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). 
6°. No último parágrafo do texto, os autores salientam que apesar do treinamento para atuar com discrição absoluta, as FOpEsp do Exército já foram acusadas de "perder o controle da situação e provocar uma explosão de violência", sendo colocada como suspeita de envolvimento em ocorrências que ocasionaram à morte em operação levada à efeito no Complexo do Salgueiro, região de São Gonçalo-RJ, em novembro do ano passado. Como parece ser recorrente nas pautas dos grandes veículos midiáticos nacionais, os responsáveis pela matéria apelam para o sensacionalismo, talvez na tentativa de desgastar a imagem das Forças Armadas (FFAA) por motivos ideológicos. É imperativo esclarecer que, ainda que as ações levadas à efeito pelos quadros operacionais das unidades de elite possam incorrer em algum "efeito colateral", devido à natureza absolutamente imprevisível de algumas variáveis envolvidas, as Operações Especiais (OpEsp) requerem um nível tão elevado de aprestamento dos recursos humanos e materiais, além de minucioso processo de coleta de dados de inteligência, planejamento e execução da ação, que o denominado "efeito real" deve ser o mais coincidente possível com o "efeito desejado", reduzindo ao máximo a possibilidade de haver situações adversas que possam comprometer a operação ou mesmo arruiná-la. 

Para tentar trazer alguma luz à forma como as FFAA devem proceder na Intervenção Federal do Rio de Janeiro, apresentamos trechos da entrevista concedida pelo General-de-Exército da reserva Augusto HELENO Ribeiro Pereira ao programa GloboNews Painel exibido no dia 17/02/2018. O General HELENO foi o primeiro comandante militar da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (MINUSTAH) no período de junho de 2004 a setembro de 2005.



Obs. A Segunda parte da matéria publicada pelo O GLOBO aborda o emprego das OpEsp do Exército Brasileiro nos Complexos de Favelas do Alemão e da Maré. Por serem temas já debatidos optamos por não reproduzir esse conteúdo, nos atendo apenas à primeira parte do texto.