quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Guerra das Falklands/Malvinas: Operações Especiais Executadas pelo SBS britânico no conflito do Atlântico Sul (Parte 1)

Texto elaborado por Rodney Alfredo P. Lisboa


Ilustração 1: Composição artística utilizando o emblema do Serviço Especial de Embarcações (Special Boat Service [SBS]), tropas especial do Real Corpo de Fuzileiros Navais britânico (Royal Marines) que na época da Guerra das Falklands (1982) era denominado Esquadrão Especial de Embarcações (Special Boat Squadron). (Fonte: Disponível em: https://special-ops.org/sof/unit/special-boat-service-united-kingdom/ Acesso em: 1 ago. 2017).

Localizadas na região sul do oceano Atlântico, a cerca 740 km a leste do território argentino e a aproximadamente 12.000 km ao sul do Reino Unido, as ilhas Falklands (denominação britânica do arquipélago conhecido pelos argentinos como Malvinas) constituem território britânico ultramarino cuja soberania é historicamente contestada pelo governo de Buenos Aires.
Arquipélago formado por duas ilhas principais (Falkland Ocidental/Grande Malvina e Falkland Oriental/Soledad) e várias ilhas menores, esse conjunto de ilhas possui uma relação histórica secular com a Grã-Bretanha. No século XVII, o navegador britânico John Strong desembarcou e tomou posse das ilhas do Atlântico Sul, as quais batizou com o nome do Visconde de Falkland, responsável por patrocinar àquela expedição naval. Durante o século XVIII, quando as rotas de comércio internacional eram realizadas exclusivamente por mar, os britânicos mostravam-se particularmente interessados em valer-se da estratégica posição geográfica do arquipélago localizado nas proximidades do Estreito de Drake, que até a abertura do Canal do Panamá (inaugurado em 1914) representava a única passagem que interligava os oceanos Atlântico e Pacífico.
O período entre 1764 e 1771 foi marcado por intensas disputas territoriais entre espanhóis e britânicos, que ocupavam a Falkland Oriental e a Falkland Ocidental respectivamente. O impasse terminou com os espanhóis aceitando a presença britânica na ilha situada a Oeste, enquanto Londres reconheceu a autoridade espanhola no arquipélago. No século XIX, com o advento da Guerra de independência das Provinciais Unidas do Prata (1810-1818), Londres concluiu que a autoridade espanhola no arquipélago havia terminado. Por sua vez, o governo de Buenos Aires, acreditando ter herdado o arquipélago dos espanhóis, requeria a soberania das ilhas para a nação argentina. Em 1828, tomando a iniciativa de proclamar sua autoridade em relação às ilhas, os argentinos estabeleceram um assentamento de colonos no local. Em resposta à ação argentina, os britânicos fazem valer sua posição de forma definitiva, expulsando os colonos sul-americanos entre 1831-1832, e passando a exercer sua soberania no arquipélago desde 1833.
No decorrer do século XX, a Argentina passou a requerer a soberania do arquipélago de forma mais veemente, colocando a questão junto aos organismos internacionais como um problema relacionado à identidade da nação. Para o governo militar instituído em 1976, recuperar a soberania das ilhas representava uma estratégia política, que entre outros objetivos, daria sustentação ao regime.   


Ilustração 2: Mapa das ilhas Falklands/Malvinas Ocidental e Oriental. (Fonte: Disponível em: https://guerraearmas.wordpress.com/2014/06/page/2/ Acesso em: 1 ago 2017).

Em 1982, decididos a resolver o problema das Falklands, o triunvirato militar composto pelo General-de-Divisão Leopoldo Fortunato Galtieri Castelli, Contra-Almirante Jorge Isaac Anaya e Brigadeiro-General Basilio Lami Dozo, que respondiam pelo governo argentino, certos de que contariam com apoio dos EUA em virtude da excelente relação existente entre Washington e Buenos Aires, optaram por colocar em prática a operação de invasão (denominado Plano Goa) desenvolvida ainda na década de 1960.
Em março de 1982, o navio de transporte argentino Bahia Buen Suceso atracou no porto de Leith nas ilhas Geórgia do Sul, território de possessão britânica distante cerca de 1.280 km das Falklands, com o pretexto de desembarcar um grupo de 42 trabalhadores que removeriam os restos de uma estação baleeira abandonada de propriedade do empresário argentino Constantino Davidoff. Sem se preocupar em obter autorização para realizar tal empreendimento, o grupo tomou a iniciativa de erguer a bandeira Argentina ao som do hino nacional.
Informado pelo embaixador britânico que o evento sucedido nas ilhas Geórgia do Sul violava a soberania britânica na região, o governo argentino mostrou-se solidário a seus compatriotas e manifestou sua intenção de protegê-los. Ainda no decorrer de março, sob alegação de realizar manobras navais com a Marinha Uruguaia nas proximidades de Ushuaia, uma significativa força naval argentina partiu da Base Naval Puerto Belgrano em direção às Falklands. A invasão das ilhas, levada a cabo sob codinome “Operação Rosário”, realizou seu intento sem grandes dificuldades, subjugando a pequena guarnição de 68 Royal Marines responsável por prover a defesa do arquipélago, capturando e prendendo o governador Rex Hunt posteriormente.
A ocupação das ilhas Falklands pela Marinha Argentina (Armada de la República Argentina [ARA]) causou grande comoção entre a opinião pública britânica, que acusava o governo conservador da primeira-ministra Margaret Thatcher de negligenciar a segurança dos kelpers (habitantes locais de origem majoritária britânica) e ignorar as evidências de uma invasão iminente. Com a crise política instalada, a premiê britânica autorizou uma resposta militar imediata, que seria levada a cabo com a denominação “Operação Corporate”. Nesse contexto, a Força-Tarefa 317 (FT-317), composta por 30 navios de guerra e uma força expedicionária composta por milhares de homens, foi enviada para o Atlântico Sul em abril.
A FT-317, juntamente com os Navios-Aeródromo (NAe) HMS Hermes e HMS Invincible, atracaram na ilha de Ascenção, território de possessão britânica situado na região central do Atlântico (distante 7.400 km das Falklands), que seria transformada em uma base avançada para o abastecimento do contingente militar que combateu as forças argentinas enquanto durou o conflito.
O componente militar britânico responsável pela retomada do arquipélago das Falklands era formado por um corpo expedicionário constituído de 28.000 homens, uma força aeronaval formada por 33 navios de combate, 60 navios mercantes utilizados para transporte, além de uma centena de aeronaves de asa fixa e rotativa. A ponta de lança das forças terrestres era composta por 9.500 soldados divididos em duas brigadas: 3ª Brigada de Comandos (Royal Marines e Paraquedistas) e a 5ª Brigada de Infantaria. As Forças de Operações Especiais (FOpEsp), compostas pelo Serviço Aéreo Especial (Special Air Service [SAS]) e Esquadrão Especial de Embarcações (Special Boat Squadron [SBS], atual Special Boat Service), operavam incorporadas à essas duas brigadas.
A primeira ação da qual o SBS tomou parte no conflito contra as forças argentinas em 1982 foi a retomada das ilhas Geórgia do Sul, localizadas a cerca de 1.440 km a leste das Falklands. Levada a efeito entre 21 e 26 de abril, o desembarque das tropas britânicas, realizado sob codinome “Operação Paraquat”, foi organizado a partir do reconhecimento marítimo conduzido por meio submarino (pela embarcação de propulsão nuclear HMS Conqueror), e aéreo (pelo avião-tanque Handley Page “Victor” adaptado para executar reconhecimento fotográfico). Confirmada a ausência de navios de guerra argentinos no entorno das ilhas Geórgia do Sul, no dia 20 de abril um avião Hércules C-130 partiu da ilha de Ascenção transportando 12 operadores SBS, que desembarcaram da aeronave em pleno voo saltando de paraquedas. Após pousarem na água, os SCs embarcaram no Submarino convencional (propulsão diesel-elétrico) HMS Onyx que estava navegando em direção às ilhas alvo.


Ilustração 3: Operador da Seção  N° 2 do SBS durante operação de incursão nas ilhas Geórgia do Sul objetivando a retomada do território ocupado por tropas argentinas. (Fonte: Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/21814379423062347/ Acesso em: 1 ago. 2017).

Neste ponto, é necessário relacionar o contingente militar britânico que compunha o Grupo-Tarefa (GT) destacado para a retomada das ilhas Geórgia do Sul: Contratorpedeiro (CT) HMS Antrim acrescido de um helicóptero Wessex embarcado; Fragata (F) HMS Plymouth acrescida de um helicóptero Wasp embarcado; Fragata (F) HMS Brilliant acrescida de um helicóptero Lynx embarcado; Navio de Patrulha (NPa) Antártica HMS Endurance acrescido de dois helicópteros Wasp embarcados; Navio-Tanque (NT) RFA Tidespring acrescido de dois helicópteros Wessex embarcados; Esquadrão D do SAS; Seção N° 2 do SBS; Companhia M do Comando 42 dos Royal Marines.
As condições adversas do local, com ventos fortes, mar agitado, baixa temperatura e pouca visibilidade, impossibilitaram a ação inicial do SBS, a ser desempenhada durante a noite do dia 22 de abril por Nadadores Canoístas (Swimmer Canoeist [SC]) tripulando botes infláveis de assalto “Gemini” (seis homens por embarcação). As tempestades características da região lançaram farpas de gelo que perfuraram as embarcações, impossibilitando a incursão que teria a área de Sorling Valley como objetivo final.
No dia 24, empregando o helicóptero Lynx, da Fragata HMS Brilliant, um destacamento de operadores SBS desembarcou clandestinamente na região do Fiorde Moraine, ocupando posições estratégicas que lhes serviriam como postos de observação das atividades inimigas visando a orientação das forças de assalto britânicas que desembarcariam posteriormente nas ilhas Geórgia do Sul.
No dia seguinte, valendo-se do impacto psicológico de ter inutilizado o submarino argentino ARA Santa Fe, detectado na madrugada daquele mesmo dia, os britânicos anteciparam a invasão reunindo um grupamento composto pelos Royal Marines embarcados no CT Antrim, nas Fs Brilliant e Plymouth, além de operadores SAS e SBS, que foram transportados de helicóptero para a região de Hestesletten, nas proximidades de Grytviken. Após sucessão de fogo naval disparado pelo Antrim e pela Plymouth contra as posições argentinas, o destacamento britânico avançou sem enfrentar resistência, aceitando a rendição da guarnição de Grytviken no dia 25. A guarnição de Leith rendeu-se na manhã seguinte, data em que a Union Jack (bandeira da Grã-Bretanha) e a White Ensign (pavilhão de combate da [Real Marinha britânica [Royal Navy]) foram hasteadas simbolizando a retomada das ilhas Geórgia do Sul pelo Reino Unido.


Continua...


2 comentários:

  1. O Special Air Service que fora criado por Churchill durante a segunda guerra mundial como um grupo comando dedicado a dar alfinetadas nos nazistas nos pontos mal protegidos, desembarcando, causando caos, destruição e sabotagem para logo embarcar e voltar para casa, teve por conta da sua atuação na segunda guerra uma bem ganhada fama de força competente e letal.

    Os Argentinos acreditavam que o SAS faria das suas no sul Argentino atacando bases aeronavais e aeródromos militares executando ações de sabotagem, o que finalmente não aconteceu. O que fica claro é que um ataque do SAS era uma possibilidade real que também faz parte dos segredos da guerra de Malvinas porque a Inglaterra nunca aclarou se planejou realmente realizar ataques ao continente. O que nos leva ao seguinte ponto.

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    1. O SAS não foi criado por Churchill e sim por David Stirling. Churchill criou os commandos.

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