sábado, 30 de julho de 2016

A Cultura das Operações Especiais Expressa no Simbolismo da “Caveira”

Texto elaborado por Rodney Alfredo Pinto Lisboa com base no artigo escrito originalmente por Onivan Elias de Oliveira, Tenente Coronel da Polícia Militar da Paraíba e primeiro Comandante do GET (Grupo Especial Tático).

Fotografia 1: Integrantes do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) do Rio de Janeiro realizam operação de combate ao tráfico de drogas no complexo de favelas da Rocinha, Rio de Janeiro. (Fonte: Disponível em: http://exame.abril.com.br/topicos/bope Acesso em: 28 jul. 2016).

A semiótica (ciência destinada à promover o estudo dos símbolos) atribui à caveira uma diversidade de significados, sendo o mais usual àquele que se refere à mudança ou transformação, representando o caráter transitório da vida (mortalidade). Por estar associada à morte, várias culturas, por temerem-na em virtude de aludir à ideia de finitude, atribuem à caveira representações inerentes ao perigo, destruição, extermínio ou óbito. 
O estereótipo de perigo e morte sugerido pelo simbolismo da caveira foi muito bem empregado pelos piratas, que entre os séculos XVI e XVIII promoviam saques e pilhagens à embarcações e cidades costeiras em busca de riqueza e poder. Embora existam diferentes variações de bandeiras representativas da atividade pirata, àquela que mais se destaca é a bandeira denominada Jolly Roger (caveira posicionada acima de dois ossos sobrepostos cruzados em fundo negro). O motivo que os levava a ostentar esse símbolo tremulando sobre os mastros de suas embarcações era incutir em suas vítimas a sensação de medo motivado pela noção de ameaça e crueldade. 
Embora a utilização da caveira como símbolo das unidades militares de elite possa ser observada, sobretudo, nos uniformes trajados pelas Divisões Totenkopf (Crânio da Morte) da Waffen SS (unidade de elite do Partido Nazista alemão) durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), essa representação simbólica já havia sido envergada na Prússia (integrada ao Império Alemão em 1871) pelo Regimento Hussardo de Cavalaria durante o reinado de Frederico II (Frederico, o Grande) entre 1740-1786.  

Fotografia 2: Oficial (Segundo Tenente) das Divisões Totenkopf trajando a insígnia da caveira na gola direita da túnica do fardamento e na banda do quepe. (Fonte: Disponível em: http://derwulf.tumblr.com/ Acesso em: 28 jul. 2016).

Em 1944, na iminência da derrota alemã em território francês, as tropas aliadas avançavam sobre os soldados nazistas que, sem alternativa, tentavam retornar para a Alemanha. Particularmente as Waffen-SS, devido às atrocidades cometidas no decorrer da guerra, tornaram-se o alvo preferencial dos Commandos franceses (tropa formada por voluntários da Marinha, Fuzileiros Navais e Exército organizados conforme modelo britânico). Nesse contexto, quando assediavam um quartel da tropa de elite nazista, um operador Commando se deparou com a mesa de um oficial alemão, na qual havia uma caveira que lhe servia de adereço. Sem hesitar, o operador sacou sua adaga de combate Fairbairn-Sykes cravando a lâmina delgada no ornamento como símbolo da vitória sobre as tropas que causavam à morte. Essa passagem, sem qualquer evidência histórica, baliza o início do mito, transmitido por tradição oral, da “Faca na Caveira”.
No Guerra do Vietnã (1955-1975), o símbolo da caveira foi utilizado juntamente com o ás de espadas (carta de maior valor entre os naipes do baralho) na condução de guerra psicológica empreendida contra os soldados norte-vietnamitas. Valendo-se da superstição característica da região, as tropas norte-americanas tinham o hábito de posicionar o ás de espadas sobre os corpos dos inimigos como uma representação da morte. No decorrer o conflito, o SOG-MACV (Grupo de Operações Especiais-Comando Militar de Auxílio ao Vietnã), unidade do Exército dos EUA responsável por conduzir Ações Indiretas no Vietnã do Norte, Laos e Camboja, assumiu a caveira como símbolo. 

Figura 1: O personagem "Justiceiro" da editora Marvel Comics representado pela arte do quadrinista Jim Lee. A imagem da caveira estampada no peito do personagem foi adotada pelo SEAL Team 3 durante a GWOT (Guerra Global contra o Terror) conduzida no Iraque entre 2003 e 2011. (Fonte: Disponível em: http://www.cheatsheet.com/entertainment/marvel-the-punisher-netflix.html/?a=viewall Acesso em: 28 jul. 2016).


A Guerra do Vietnã serviu como fonte de inspiração para a cultura das histórias em quadrinhos estadunidense, explorando a simbologia da caveira em favor de um personagem controverso. Criado em 1974 por Gerry Conway (roteirista), John Romita Sr.(desenhista) e Stan Lee (editor), o "Justiceiro" (Punisher) era um veterano do Vietnã, ex-integrante da Marine Force Reconnaissance (Força de Reconhecimento dos Fuzileiros Navais), que motivado pelo brutal assassinato de sua esposa e filhos durante um tiroteio entre grupos mafiosos rivais, torna-se um vigilante que lança mão de suas habilidades singulares para desencadear uma guerra violenta contra o crime. Como símbolo de sua empreitada, Frank Castle (Justiceiro) adotou um uniforme predominantemente negro, com uma enorme caveira estampando-lhe o peito, em referência à justiça representada por ele por ocasião das mortes que causa. O personagem tornou-se tão popular entre as FOpEsp norte-americanas, que o SEAL Team 3 da Marinha adotou a caveira, ostentada em uniformes e veículos (Humvees), como símbolo informal da unidade, conforme enfatizado no livro "Sniper Americano" escrito pelo ex-operador Chris Kyle, considerado o atirador de precisão mais letal da história militar dos EUA.

Figura 2: Emblemas de algumas tropas especiais brasileiras que utilizam-se da simbologia da caveira. Partindo da esquerda para a direita e de cima para baixo: insígnia da Ação de Comandos (Exército); brevê do ComAnf (Fuzileiros Navais); distintivo do BOPE (PMMT); distintivo do GATE (PMPB); distintivo do BOPE (PMRJ); Curso OpEsp (PMMG); distintivo do BOPE (PMPI). (Fonte: Elaborado pelo autor). 

No Brasil, a tradição de empregar a caveira como símbolo de unidades e/ou atividades militares remonta a década de 1960, quando o Exército Brasileiro, adequando-se à conjuntura internacional, constituiu, em 1968, o Destacamento de Ação de Comandos, então subordinado à Companhia de Forças Especiais da Brigada de Infantaria Paraquedista. Na esteira dessa tendência, o Batalhão de Operações Especiais de Fuzileiros Navais (Batalhão Tonelero), criado em setembro de 1971, adotou a caveira no brevê de identificação que caracteriza a atividade dos ComAnf (Comandos Anfíbios). Por sua vez, algumas tropas especiais das Forças de Segurança Pública nacionais (consideradas como Forças Auxiliares das FFAA [Forças Armadas]), incorporaram a caveira em suas representações simbólicas como artifício que lhes confere a sensação de pertencer a uma sociedade (OpEsp) que é reconhecida pelas habilidades que fogem aos padrões de convencionalidade, respeitada por possuir um ethos próprio, reverenciada pela excelência na execução das exigentes tarefas que lhes são destinadas.




2 comentários:

  1. Excelente texto. E assim surgiu o lendário lema. E como diz-se até hoje no Exército "A faca brilha, a caveira sorri. Eu não tenho pena de ti. A pele do inimigo eu pus no mastro da bandeira e hoje sou chamado de faca na caveira."

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